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29 de outubro de 2007

Era uma vez o Jazz

Carlos Braga e Luiz Orlando Carneiro

Cada um no seu estilo, mas com alguma coisa em comum, contemporizava o antigo slogan do Free Jazz Festival. Hoje o jazz, que dominou a primeira edição do evento, em 1985, no Teatro do Hotel Nacional, aperta-se nos palcos Jazz US e Euro Jazz do Tim Festival, que encerrou ontem, na Marina da Glória, no Aterro do Flamengo, após dois dias de shows. O pop domina a programação e nem os jazzófilos mais condescendentes enxergam o que há em comum entre Joey DeFrancesco e Arctic Monkeys. Nelson Tolipan, apresentador do programa Momento jazz, da Rádio MEC, afirma que realmente houve uma tendência de queda no número de atrações de jazz ao longo dos festivais.

- O sucesso do jazz ocorreu mesmo no Teatro do Hotel Nacional. Mas era uma coisa menor e não essa grandiosidade que existe hoje. O jazz é uma música mais complexa, que exige mais conhecimento. Hoje, o festival delimita um espaço relativamente pequeno para o jazz e seus apreciadores - analisa Tolipan, ressaltando que o festival tem o mérito de formar e consolidar um tipo de público.

O festival promovido pela empresa fabricante dos cigarros da marca Free era um encontro de nível internacional entre jazzmen de renome, jazzófilos exigentes e recém-convertidos ao modo de expressão musical considerado, digamos, elitista. Foi lá que ouvimos pela primeira vez, ao vivo, os young lions surgidos na segunda metade da década de 80, tendo à frente os célebres irmãos Wynton e Branford Marsalis. Mas por ter também uma conotação free - "livre" ao pé da letra, sem referência ao estilo vanguardista de Ornette Coleman e John Coltrane - foi, aos poucos, abrindo as portas a cantores de blues e ao chamado jazz samba (ou samba-jazz). E ao rock. O advogado Luiz Fernando Senna, 67 anos, freqüenta o festival desde o tempo do Teatro do Hotel Nacional e não vê vantagens nessa diminuição de espaço para o jazz.

- É difícil assistir a um bom show de jazz no Rio. Há poucos espaços que a cada ano diminuem mais. Era melhor no tempo do Hotel Nacional. Agora ficou como última categoria. Eles dão prioridade ao rock. Antigamente, era o jazz a prioridade - queixa-se, saudoso.

Em 1996, o Free Jazz foi transferido para a ampla área do Museu de Arte Moderna, no Aterro do Flamengo, e acabou por seguir a linha aberta à música pop planetária, consagrada no Festival de Montreux. O MAM passou a abrigar, uma vez por ano, uma aldeia global, animada pelo beat pesado do rock e suas variantes, em enormes tendas e espaços abertos. O volume do som, distorcido pelos DJs, abafava o ruído dos aviões que decolavam do Aeroporto Santos Dumont. Do auditório original do Hotel Nacional, o real jazz - que o guitarrista John Scofield distingue da fusion da qual também é mestre - ganhou um espaço onde funcionava o restaurante do MAM, apropriadamente batizado de Club. Foi lá que se apresentaram - para um sempre fiel grupo de 400 aficcionados e simpatizantes - músicos da expressão dos veteranos Lee Konitz e Art Farmer, e estrelas da segunda geração dos young lions, como o saxofonista James Carter e o trompetista Nicholas Payton. O jazzófilo Leo Kruczan, 70 anos, aposentado, viveu intensamente os anos de ouro do festival no Hotel Nacional. Chegou a pegar um autógrafo de Chet Baker, atração máxima da edição de 1985. Hoje ele reclama do exíguo espaço dedicado aos amantes do estilo criado pelos negros americanos.

- No Teatro do Hotel Nacional cheguei a preencher uma ficha pedindo as atrações que queria ver no ano seguinte. Mas o público foi envelhecendo e o espaço dedicado a nós diminuiu.

Em 2003, depois da lei que proibiu o patrocínio de eventos culturais pela indústria do tabaco, o Free foi assumido pela empresa telefônica Tim. E abriu ainda mais aquele festival de "jazz" à geração que ouve música (ou "som") a granel nos seus i-pods e celulares, sem qualquer preocupação com classificações estilísticas. Jorge Coelho, 25 anos, estudante de engenharia, lembra:

- Venho desde 2002. Este ano encolheram muito as atrações de jazz. Ano passado foram três dias de show e havia o dobro de bandas. E estavam sempre lotados.

Colaborou Ana Paula Verly

Fonte: Matéria copiada do JB Online.

Veja essa notícia no site do JB: Clique aqui.

[ 28/10/2007 ]
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1 comentários/comente ...:

A ghost... disse...

Normalmente não teço comentários, mas este despertou minha sincera atenção.
Particularmente minha preferência é pelo rock mas amo jazz. Há mto tempo atrás qndo tive ouvi algo q não me lembro mais q era, foi o início de uma paixão pelo jazz. Acabei parando pelos punks, hardcore, metal (todos estilos), funk, blues, e sempre o jazz teve um lugar guardado para mim.
Mas apesar de minha preferencia incontestavel (em q rock e jazz empatam), se vou em um festival de jazz (como era o free jazz) quero ouvir JAZZ e não essa balbúrdia praticamente sem estilo (?) q funciona atualmente. Existem tantos nomes no jazz atual, mas vai ver, gostam de mais público, mais dinheiro e menos artistas bons. Sem preconceitos, apenas opinião pessoal, mas não me chama atenção nenhum dos grupos participantes....
Ah sim, e mto grato por sempre estar disponibilizando ótimos álbums =D
Abraço !

 
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