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6 de outubro de 2008

Incursão Amazônica: Diário de Bordo I

Túnel de Mangueiras // Foto: Fernanda Melonio

Prezados amigos,

Como havia prometido, estou aqui com meu “quase diário” sobre minha incursão amazônica. Quase porque é uma complicação usar a internet nessa cidade. Parece que trovão e eletricidade não se entendem muito bem, tornando-se quase que imprevisível o uso de qualquer equipamento eletrônico. Isso ocorre porque a região Norte possui a maior incidência de raios do país, então vocês imaginam as conseqüências: quedas de energia elétrica, equipamentos danificados...

Botaram tanto terror na chuva, mas a chuva aqui é muito fraca... Ontem choveu apenas o dia todo! Mas apesar do percalço, a chuva é um grande atrativo “turístico” desta cidade: é impressionante como os belenenses conseguem sobreviver a tanto fluxo pluvial! Se fosse no Rio de Janeiro, tenho certeza que o concreto ia virar mar...

E por falar em água, um dos encantos desta terra é a grande diversidade de alimentos, principalmente pescados dos mais diversos tipos e variadas cores... O engraçado é que enquanto escrevo este texto, acaba de passar um peixeiro na porta da casa!!! Pra vocês verem o quanto o peixe aqui é constante... De fato, os peixes são muito gostosos. O que mais me surpreendeu foi o tamuatá e, principalmente, a pescada branca. O primeiro é a síntese daquele velho ditado: “quem vê cara, não vê coração” (vejam na foto). Tem um aspecto estranhíssimo, que repele os desavisados. Lembra um fóssil! Mas ao prová-lo, você se surpreende com seu sabor forte, que impregna no paladar. O segundo, cuja receita disponibilizarei mais abaixo, tem uma carne tão saborosa e macia que parece ter sido marinado no leite de coco de um dia para o outro (não, não foi).
Tamuatá // Foto: Fernanda Melonio

Além de peixes, Belém se torna ainda mais colorida por sua vasta coleção de frutas, como o conhecido açaí, abricó (apricot), cupuaçu, bacuri, dentre outras que compõem a aquarela frutífera da região.
Açaí puro na tigela // Foto: Fernanda Melonio

Outra coisa que nem posso dizer que foi uma surpresa e sim uma aberração (e olha que estou acostumado a comer bem e de tudo) foi o jacaré que ganhei de presente da família da Nanda. É isso mesmo que vocês leram: jacaré. Mas calma, não estava vivo! Como vocês verão na foto abaixo, a carne dele é salgada e ele é vendido em postas, como um bacalhau. O gosto é simplesmente de jacaré, não lembro de ter comido algo com gosto parecido. Eu recomendo.

Jacaré salgado que eu ganhei de presente do pai da Nanda
Foto: Fernanda Melonio

Como em toda cidade que gosto de visitar, procuro focar o lado social e o estilo de vida urbano e das pessoas. Apesar de tanta beleza, certas coisas me desagradaram. Acredito que o pobre daqui, por sua condição de excluído, de flagelado, é muito mais fácil de ser manipulado do que no Rio, por exemplo. Para vocês terem uma idéia, aqui há dois candidatos que estão disputando: o Duciomar, do PTB, e o Priante, do PMDB. O primeiro é reverenciado pelos mais pobres, sendo que ele só fez uma única ação na cidade: asfaltar toda a periferia. Para um povo que antes vivia na lama e nem podia sair de casa com dignidade quando chovia (todo dia), isso é um feito extraordinário, que acaba fazendo com que essas pessoas esqueçam que um prefeito tem outras responsabilidades pendentes na cidade, como um bom sistema de saneamento básico e saúde. O outro é sobrinho do Jader Barbalho, ou seja, não preciso comentar mais nada.

Duciomar (esq) e Priante (dir) // Foto: Uol Eleições

Belém é uma cidade de contrastes como qualquer metrópole do Brasil. A diferença daqui para São Paulo, por exemplo, é que as classes sociais não são muito distantes. Você pode caminhar na Rodovia Augusto Montenegro, por exemplo, e se deparar com invasões (as favelas daqui) vizinhas a condomínios de luxo. E isso não é um caso isolado: é extremamente corriqueiro. Por outro lado, há um fator comum em todo o país para que aconteça isto: muitos ricos simplesmente não se importam. A pobreza só os atinge quando há algum crime onde a vítima é – pelo menos – de classe média. No mais, a cidade pode estar repleta de valas a céu aberto que eles não se preocupam, pois estão dentro de seus carros importados e de suas casas em condomínios fechados.

Nestes primeiros dias já deu pra conhecer muita coisa interessante, como a belíssima (e cara) Estação das Docas (obra para inglês ver do governo tucano, que assolou a cidade por 12 anos); o belíssimo Mercado do Ver-O-Peso, que vende de tudo um pouco e fica na beira da Baía do Guajará... Aliás, importante ressaltar o quão surpreso fiquei ao saber que aquela vastidão toda de água é parte de um rio! Aliás, parte de dois rios: o Guamá e o Acará. Eu, que sou um carioca alienado dessas coisas, jurei de pé junto que aquilo era um golfo (rsrs).

Estação das Docas // Foto: Fernanda Melonio

Também tive o prazer (?) de ir a uma festa de aparelhagem. Essa experiência antropológica rende um post à parte, senão isso aqui não acaba nunca!
Festa de Aparelhagem // Foto: Blog Tendências A...

Ontem fomos até a Ilha de Mosqueiro, um distrito que pra mim parece mais um “bairro-município” da Grande Belém. Vocês não entenderam nada? Nem eu! Para chegar até lá, você precisa sair da cidade, ir para outros municípios, para quando chegar lá, descobrir que é Belém novamente. Sendo que tudo isso leva quase uma hora e meia de carro, depois de passar por Ananindeua, Marituba, Benevides e Santa Bárbara. Pelo que andei lendo, a Ilha era distrito de Benevides e apenas no início do século XX tornou-se distrito administrativo de Belém. Se originalmente era freqüentada apenas pela elite local, hoje há um maior acesso da população depois do barateamento do transporte: para chegar lá, você pode pagar apenas a passagem de ônibus urbana de Belém, que é R$ 1,50.

A Ilha é bem organizada, tem paisagens belíssimas... Senti muita harmonia no ar, fazendo jus ao apelido local de Bucólica. Uma pena que a Nanda fez o “favor” de esquecer as duas máquinas fotográficas em casa! Se vocês não têm as fotos de Mosqueiro, a culpa é toda dela...

Para finalizar, fomos à noitinha (não deu para pegar o pôr-do-sol por causa do santo pé d’água de toda tarde) para o Mormaço, próximo ao Mangal das Garças, na Cidade Velha. No local – que minha namorada denomina como alternativo, coisa que discordo – tocava o bom e velho carimbó da terra. Achei o grupo muito talentoso, fazia um misto de diversas vertentes da música brasileira em ritmo de carimbó. A formação era guitarra, dois curimbós, backing vocals e outros diversos instrumentos de percussão. Deu para matar uma das minhas grandes expectativas que era conhecer as danças típicas da região. É um ritmo que incita as pessoas a dançar de uma maneira sensual, o que é muito legal de se ver (nem preciso falar o porquê, né?). Mas nada que seja apelativo e “sexual”, como estou acostumado a me deparar no Rio de Janeiro. Aqui as pessoas levam a arte e as suas origens a sério, sem deturpações ou qualquer outro meio que venha a denegrir os costumes tão significativos para este povo.

Carimbó // Foto: Rosane Volpatto

Aguardem que logo daremos mais notícias.

Receita de Pescada Branca assada:

Foto: Fernanda Melonio


Ingredientes para um peixe de 1 kg aprox. :

-2 dentes de Alho
-Limão
-Sal à gosto
-Molho Inglês

Preparo:

-Tempere o peixe (já limpo) com limão, alho e sal à gosto.
-Leve à grelha e asse no carvão por aproximadamene 45mn, virando sempre o peixe para assar por igual.
-Durante o cozimento, regue o peixe com um pouco de molho inglês.

Joelma e Chimbinha // Foto: Fernanda Melonio

Link QuebradoLink Quebrado? Link Sem FotoPost Sem Foto?

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5 comentários/comente ...:

Nanda Melonio disse...

Só um detalhe: não, não dá pra caminhar muito na Aug. Montenegro... Mas de carro ou ônibus vc já nota tudo isso.

Daniel Argentino disse...

Esse peixe na brasa deve ter ficado muito bom. Só a foto já da para imaginar.

hehehe..

Selma disse...

Olá Queridos,
Estamos com vontade de arrumar as malas e partir para esta maravilha!!!
O texto está tão perfeito que sentimos o gosto do açaí, o aroma do Taperebá e do banho com água de cheiro!!!
Não esqueçam de passar em Icoaraci ver a orla e visitar os artezões que fazem a cerâmica marajoara.
Estamos bem com saudades!!!
Selma e Gerson

Selma disse...

Leo, Adorei as suas falas, impressões de uma cultura que nos atravessa,sem pedir autorização, nos remete a sonhos de natureza e de manhães regadas a sol e banhos de rio.Mas, o mais intenso é o olhar deste povo, sofrido, castigado pelos interesses escusos, mas que revive de sua força e de sua cultura.
Curta bastante toda essa realidade,

Márcia Vinchon

BORBOLETAS DE JADE disse...

Bela viagem as novas descobertas.
Estive em Macapá neste tempo e se tivessemos nos comunicados, poderia até nos conhecido um pouco mais,firmando ainda ass estruturas do que nos presnde.Fantastica e bela postagem.

 
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