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21 de maio de 2009

Entrevista com o midas da música brasileira

por Andrei Andrade


Sírio de nascimento e radicado no Brasil desde 1955, o produtor musical André Midani foi um dos principais nomes na popularização da música brasileira. Lançou os grandes nomes da Bossa Nova, como Tom Jobim, João Gilberto, Nara Leão, Roberto Menescal, Carlos Lyra, entre outros. Abrigou em diversas gravadoras ícones da MPB, como Elis Regina, Caetano Veloso, Tim Maia, Jorge Ben e Gilberto Gil.

Sempre buscando renovação, descobriu as bandas de rock dos anos 80, começando pelo Ultraje A Rigor e quase todas as que surgiram na época. Confessa que já ofereceu jabá às rádios até pra tocarem Chico Buarque, o que afirma ter feito “pelo bem da música”.

Numa tarde de terça-feira, 12 de maio, antes de falar para cerca de 60 alunos e professores do Curso de Produtores e Músicos de Rock e fãs de música da Unisinos, Midani recebeu a reportagem do Jazzman!. Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

Andrei: Você viu de perto uma época em que músicos da Bossa Nova e da MPB eram fenômenos de massa, o que não acontece com os artistas da música popular de hoje. O que mudou?

André Midani: Em primeiro lugar, mudou o público. A universidade mudou. Os artistas saíam da universidade e falavam para um público que participava ativamente nos destinos políticos e comportamentais do Brasil. Hoje não há, por parte dos universitários, este sentido de participação, passam alheios aos problemas do país. Por causa disso, a linguagem do artista secou. Se você fala uma coisa que ninguém vai ouvir, você para de falar. Por isso a música popular brasileira mudou de circuito, não penetra mais as massas, e por isso não influencia mais no comportamento da sociedade.

O universitário hoje pensa em estudar pra ganhar dinheiro. Com toda a corrupção no Brasil, era de se esperar que a juventude saísse à rua não mais contra a ditadura, mas contra a corrupção, que é imoral e tão ruim quanto à ditadura.

Recentemente um político, em Brasília, chegou a afirmar que as críticas da imprensa são inúteis, pois eles se reelegerão sempre...

Isso é a falência da democracia. E se o meio estudantil saiu pra reconquistar a democracia nos anos 80, hoje não sai pra defender o que ele mesmo conquistou.

Na televisão de massa as atrações são sempre as mesmas. Por que a chamada Nova MPB fica de fora?

Não existe nova MPB. Existem músicos muito bons, e acho que o problema não é da mídia. Saindo da música e entrando no comportamento, acho que a juventude não encontra mais nas músicas – letra e melodia – coisas que a emocionam. Ninguém fala o que o público gostaria de ouvir, então ninguém dá muita bola. A música perdeu sua liderança política e intelectual. Tem coisas muito bonitas, mas que não vão marcar novos caminhos.

Isso ocorre porque a juventude mudou?

Sim, porque a juventude mudou... E é na juventude que nasce a música, quem faz e quem ouve.


Como o mercado fonográfico deve reagir às novas tecnologias?


Uso o exemplo da imprensa, como a conhecemos, que está com os dias marcados. Veja quantas fotografias de capa de jornal são enviadas por leitores, às vezes até com a notícia escrita. Isso tira três quartos da profissão do jornalista. Agora veja a música. Há algum tempo, era muito importante ter um estúdio de gravação, que custava mais ou menos 800 mil dólares. Hoje você tem um pro tools (software de gravação e edição de som), que não custa quase nada e qualquer um pode ter.

O som perdeu sua aura. Hoje gravam música em condições ruins e se escuta por meios piores, como o MP3. E ainda ficamos ouvindo música de merda – em termos técnicos – e tá tudo ótimo. As pessoas ficam o dia inteiro ouvindo música e não ouvem nada. A música perdeu o ritual, o culto à audição. Existe atualmente cerca de 15 milhões de sites de gaiatos que fazem música, na qual seria ótimo ter 1% de gente de talento. Mas como achá-los em meio a essa multidão?

E o possível fim do direito autoral?

É outra revolução, que não é tecnológica, mas jurídica. De fato, no futuro a música vai ser mais liberal e o copyright vai acabar. É surpreendente, pois é um retorno à sociedade primitiva, onde não se podia ganhar dinheiro com as próprias ideias. A religião muçulmana ainda hoje age assim, você não pode ganhar com sua arte, por ser um dom de Deus. É paradoxal. O mundo da alta tecnologia vai se reencontrar com as tribos africanas.

E o curso universitário de rock, como o da Unisinos (em São Leopoldo-RS) como o senhor vê?

(na foto, Midani com Frank Jorge, coordenador do curso de Rock)

Ter um curso na universidade foi um direito adquirido pelo rock. O rock tem 60 anos e revolucionou suficientemente a música, os hábitos, o comportamento das pessoas. Foi um fenômeno mais impactante do que a queda do muro de Berlim, comunismo, capitalismo ou cristianismo. Logo, a universidade faz bem em abrir os olhos pra isso e, dentro da área da música – que sempre foi universitária – levar o rock para o seu universo.

Você gosta das publicações sobre música?

É horrível o que vou te dizer, mas nestes tantos anos de militância, li tanta coisa de música, entre revistas, livros e entrevistas, que confesso que perdi a paciência. Quase não leio mais, porque em geral se diz sempre as mesmas coisas. Os artistas vão ser sempre estrelas, que vão dizer sempre o mesmo e daqui a 20 anos vão dizer o mesmo também. Mas sei que tem revistas boas no Brasil, como a Rolling Stone e a Bravo. Já a seção de música da Veja, definitivamente, não é um exemplo.

O sr. foi o grande responsável por introduzir uma música jovem no Brasil, elencando artistas de alto nível. Hoje o talento ainda é fundamental para o sucesso?

O talento sempre será fundamental, porque se você acredita nessa história de que o marketing pode tornar uma pessoa sem talento um grande ídolo durável, isso nunca aconteceu e nem vai acontecer. Um ano de fama, e o artista sem talento some. O que faz falta no momento de transição em que estamos são algumas entidades que saibam diferenciar o que é bom do que não é, e o que é bom trabalhar dentro desta diversidade de novas mídias que estão à disposição.
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3 comentários/comente ...:

Celijon Ramos disse...

Rendo minhas homenagens ao grande André Midani. Muito que temos de bom na mpb devemos ao bom senso de oportunidade, faro para identificar o novo, os talentos, além de sua enorme capacidade de trabalho. Adorei ler o livro em que ele conta muito de sua vida.

Abraços!

Celijon Ramos disse...

Rendo minhas homenagens ao grande André Midani. Muito que temos de bom na mpb devemos ao bom senso de oportunidade, faro para identificar o novo, os talentos, além de sua enorme capacidade de trabalho. Adorei ler o livro em que ele conta muito de sua vida.

Abraços!

sergio disse...

Como no comentário acima, quero render minhas homenagens àquele que sempre esteve no lugar certo, na hora certa e fazendo o certo!
Gostaria de indicar a entrevista com André Midani feita recentemente por Vilmar Bittencourt para o programa Todamusica na Rádio Cultura Brasil disponível no site da emissora em programas on demand (foram 3 programas).

Abraços e parabéns pelo trabalho!

 
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