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13 de julho de 2009

“LOUCOS PARA VIVER, LOUCOS PARA FALAR, LOUCOS PARA SEREM SALVOS...”

Loucos, loucos por jazz e blues...

Na mesma noite, curti Lampshade na esquina da Fillmore com a Geary. Lampshade é um negrão que entra nos saloons musicais de Frisco com casaco, chapéu e cachecol e salta para o palco e começa a cantar; as veias se dilatam em sua testa; ele se retorce e geme um blues desesperado com cada músculo de sua alma. Enquanto cantava, gritava às pessoas: "Não é preciso morrer para ir ao paraíso, comece com Doutor Pepper e termine com uísque". Sua voz ribomba por tudo. Faz caretas, se contorce, faz de tudo. Veio até nossa mesa, se inclinou e disse: "Yes!" Depois cambaleou para a rua e foi para outro saloon. E há também Connie Jordan, um maluco que canta e sacode os braços e termina salpicando todo mundo de suor e chutando o microfone e gritando feito mulher, e mais tarde pode-se encontrá-lo exausto, ouvindo loucas sessões de jazz no Jamson's Nook, com olhões redondos e ombros caídos, um olhar meio abobalhado, perdido no espaço, e um drink à sua frente.

KEROUAC, Jack. On the road: Pé na estrada. Porto Alegre: L&PM, 2008. p.221

* * *

George Shearing, o grande pianista de jazz, Dean falou, era exatamente como Rollo Greb. Dean e eu fomos assistir Shearing no Birdland no meio deste fim de semana longo e louco. O lugar estava às moscas, éramos os primeiros fregueses, às dez da noite. Shearing apareceu, cego, com alguém o conduzindo pela mão até o piano. Era um inglês distinto e bem-apessoado, com o colarinho branco duro, levemente rechonchudo, loiro, envolto por uma suave brisa noturna de verão inglês que se tornou evidente no primeiro número suave e murmurante que ele executou, enquanto o baixista se curvava reverencialmente para ele marcando o ritmo. Denzil Best, o baterista, permanecia sentado e imóvel, exceto pelo pulso batendo as vassouras. E Shearing deu início ao embalo; um sorriso aflorava de seu rosto extasiado; ele começou a suingar no banquinho do piano, para frente e para trás, de início lentamente até que o ritmo esquentou e ele começou a balançar mais rápido, seu pé esquerdo marcando o ritmo de cada batida, seu pescoço começou a acompanhar tortuosamente, e ele baixava o rosto até as teclas, jogava o cabelo para trás, seu penteado se desmanchou, e ele começou a suar. A música esquentou. O baixista se curvava surrando as cordas, mais e mais rápido, quer dizer, parecia ir cada vez mais rápido, só isso. Shearing começou a tocar seus acordes; eles ressoavam a cântaros para for a de seu piano em tons incrivelmente suntuosos. Você chegava a pensar que o homem não conseguiria alinhá-los. Eles deixavam o somo rolar e rolar, como ondas do mar. A rapaziada gritava “Vai” pra ele. Dean estava todo suado, o suor escorria pela sua gola. “Aí está ele! Ele é esse aí! O Pai de Todos! Shearing é o Pai de Todos! Só é! Sim, é ele!” E Shearing já percebera o louco às suas costas, podia ouvir cada uma das exclamações e sussurros de Dean, não podia vê-lo, mas podia senti-lo. “É isso aí”, disse Dean. “Legal!” Shearing sorriu; ele balançava. Shearing levantou-se do piano, suando em bicas; esses eram seus grandes dias de 1949, antes de ele ficar frio e comercial. Quando ele se foi, Dean apontou para o banco desocupado do piano. “O trono vazio de Deus”, disse. Sobre o piano repousava um trompete; sua sombra dourada provocava um estranho reflexo na direção da caravana do deserto pintada na parede, atrás da bateria. Deus se fora, restara o silêncio de sua retirada.

Idem, ibidem. p.166-164

* * *

Bandos de negros entravam no bar aos trombolhões, tropeçando uns nos outros para chegar lá. “Segura as pontas, rapaz!”, berrou um sujeito com voz de alarme de nevoeiro, e depois soltou um urro que deve ter sido ouvido até em Sacramento, ah-haa! “Uau”, disse Dean. E alisava o peito, a barriga; o suor saltava de sua cara. Bum-bum, tica-bum, aquele baterista estava soterrando sua bateria e mantinha o ritmo flutuando no ar fumacento da sala com a força assassina de suas baquetas, tica-bum! Um gordão pulava no tablado, fazendo-o vergar e ranger. “Iiiu!” O pianista apenas triturava o teclado com as mãos em garra e acordes fortuitos, lançados nos intervalos em que o incrível sax-tenor tomava fôlego para outra explosão – acordes chineses que faziam o piano estremecer inteiro; o madeirame,
nhec; as cordas, boing! O saxofonista saltou do tablado e se misturou ao público, soprando como um louco; seu chapéu estava caído sobre os olhos, alguém arrumou pra ele. Ele pulou de volta para o palco marcando o ritmo com o pé e soprando uma nota rouca, áspera, ferina, e tomou fôlego, e ergue o sax e sopra ainda mais forte mantendo o som suspenso sobre cabeças inquietas. Dean estava exatamente à frente dele com a cara quase enfiada dentro da boca do sax, batendo palmas, pingando suor nas chaves do sax, e o cara percebeu e gargalhou com o sax, uma longa, louca trepidante gargalhada musical, e todos os demais riram e requebraram e balançaram os quadris e finalmente o saxofonista decidiu explodir com tudo, dobrando-se inteiramente e mantendo um dó suspenso no ar por um longo, longo tempo, enquanto todos enlouqueciam e os gritos aumentavam mais e mais e eu pensava que a polícia mais cedo ou mais tarde invadiria o bar, vindo em grupo da delegacia mais próxima. Dean estava em transe. Os olhos do saxofonista estavam pregados nele. Afinal, ali à sua frente estava um maluco que não apenas entendia tudo aquilo como também se interessava e queria entender mais, muito mais do que o que estava acontecendo naquele instante; e, assim, duelaram; uma cascata sonora jorrava daquele sax; não eram mais simples frases musicais, mas gritos, bramidos, uivos, gemidos, “Boohh”, baixando para “Biihi!”e voltando a subir até “Hiiii”, retinindo, tilintando, ecoando em sons laterais de um sax incontrolável. Ele fez de tudo, tocou inclinado para cima, para baixo, para os lados, de ponta cabeça, na horizontal, torto, e finalmente caiu duro nos braços de alguém, desistindo; todos se acotovelaram em torno do palco e gritaram: “Yes! Yes! Ele conseguiu!”.

Idem, ibidem. p. 243-244


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2 comentários/comente ...:

JazzMan! disse...

Obrigado, filha! Eu daria tudo para ser uma personagem de jack por apenas um dia, um minuto...

Marcos disse...

Ao ler Kerouak vc chega a ouvir o jazz...

 
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