Pesquisar este blog

25 de agosto de 2011

Lucas Galvão: Jeff Coffin em BH

Jeff Coffin

Texto: Lucas Galvão
Fotos: Túlio Galvão
(exclusivo para o blog JazzMan!)

Apesar de grande admirador da Dave Matthews Band, confesso que eu não conhecia bem os trabalhos individuais de seus músicos, mesmo sabendo que todos eles sempre foram muitíssimo conceituados como instrumentistas. Parte disso se devia ao fato que conhecer a discografia da trupe de Dave Matthews enquanto grupo já demanda grande esforço, até pela mesma estar coalhada de registros ao vivo. Parte se devia à inevitável e triste verdade de que tudo que há de música boa e interessante pra se ouvir excede muito a capacidade e tempo da maioria de nós (talvez mesmo de todos nós). Felizmente, o aviso de meu amigo Leonardo Alcântara sobre o show do saxofonista Jeff Coffin em BH me permitiu preencher essa lacuna, ainda que parcialmente.


Jeff Coffin entrou na Dave Matthews Band há alguns anos, substituindo LeRoi Moore, falecido em 2008 em decorrência de um acidente de quadriciclo. Antes de se juntar à banda, Coffin havia ficado conhecido por seu trabalho com Béla Fleck e sua banda The Flecktones, famosos por fazer uma fusão entre o bluegrass e o jazz. Além disso, já havia colaborado com músicos do naipe de Brandford Marsalis e o grupo Medeski, Martin & Wood. O músico veio ao Brasil trazendo seu projeto de jazz, batizado de Jeff Coffin and The Mu’tet. Acompanhado de Felix Pastorius (filho do lendário Jaco Pastorius, no contrabaixo), Jeff Sipe (ex-Aquarium Recue Unit, na bateria), Mike Seal (jovem fenômeno de pouco mais de 20 anos, na guitarra) e Bill Fanning (trompetista tarimbado por anos de experiência), Jeff Coffin incluiu em sua passagem pelo Brasil, além de show no Rio e em São Paulo, uma improvável incursão por Belo Horizonte. Para minha felicidade.


Mesmo que Dave Matthews e seus comparsas usem de diversos elementos do jazz para compor sua sonoridade pop, os públicos não são coincidentes, de um modo geral. Do que pude perceber, entre o bom público que compareceu ao Hard Rock Café havia uma maioria de fãs do conjunto americano do que de consumidores de jazz, o que poderia ser talvez fruto do público de jazz de belo horizonte estar mais acostumado a pequenos shows em cafés e bares, além de que a divulgação do show foi bem restrita. Eu mesmo não teria ficado sabendo do mesmo se não fosse meu amigo agora residente em Buenos Aires me avisar pela internet, e me considero um cara relativamente “antenado” sobre o que rola por aqui.



Também no espaço híbrido entre o jazz e a música pop se encaixou a escolha do lugar do show. Ao contrário de boa parte das casas de show de Belo Horizonte, como o horrível Chevrolet Hall, o Hard Rock Café possui uma acústica razoável, ainda que com suas limitações e que não chegue a ser propriamente um teatro. Ainda assim, a casa apresentou sérios problemas, como as poucas cadeiras e mesas posicionadas em frente ao palco, deixando no ar a pergunta se seria um show pra se assistir sentado ou em pé. Claro que se tratava de uma justa opção da casa para tentar privilegiar as mesas e o público que consome, mas fato é que tal decisão ter prejudicado o espetáculo, que, ao meu ver, deveria estar para a casa de shows acima de outras preocupações. A solução para o público acabou sendo recolher cadeiras que estavam do lado de fora e trazê-las para dentro, o que se viu obrigado a fazer inclusive o grande guitarrista Toninho Horta, sentado a poucos metros de mim. Inicialmente os presentes que “importaram” cadeiras foram mesmo questionados pelos seguranças, mas diante da falta de opções para o problema, a própria gerência da casa acabou cedendo.


O show de abertura ficou por conta da banda Tripping Billies, cover local de Dave Matthews Band já com alguns anos de estrada e cujo show eu nunca havia visto. A banda subiu ao palco e fez uma apresentação competente e carismática, embora curta, como era de se esperar de um show de abertura. A banda mostrou sintonia e grande semelhança aos arranjos originais, o que, convenhamos, já é por si só um mérito, uma vez que os mesmos são por vezes complexos. As aproximadamente cinco músicas tocadas incluíram clássicos como “Tripping Billies”, que empresta nome à banda, e “#41”, essa última com sua tradicional sessão de improvisos um pouco podada, até em função da duração do show. Ao fim, a banda tocou “Ants Marching”, das mais conhecidas canções da Dave Matthews Band, levantando o público e fazendo muitos cantarem (o que confirmou minhas suspeitas com relação ao público). Estava aberta a noite para a música de Jeff Coffin.

Depois de um intervalo que durou entre 20 e 30 minutos, para os necessários ajustes técnicos, chegou o momento mais aguardado da noite e o Mu’tet subiu ao palco. Entre sorrisos e breves demonstrações de simpatia (dentre elas o fato do trompetista Bill Fanning vestir a camisa da seleção brasileira), a banda de Jeff Coffin não perdeu tempo e mostrou logo a que veio, abrindo o show com seu jazz cheio de vigor e energia.

O som do quinteto de serve em parte do bebop e de escolas mais tradicionais do jazz, mas sem deixar de lado toques de funk e uma grande criatividade que dificulta inclusive a classificação do grupo em qualquer escola. Após passar pelo tema principal, em todas as músicas houve espaços para improvisos individuais de cada um dos instrumentistas. Começando geralmente com uma sonoridade mais tradicional do saxofone para depois adentrar por caminhos cheios de efeitos, distorções e pedais, Jeff Coffin soube dar a cada solo grande musicalidade e fazer valer sua empatia com o público. Mesmo se servindo do virtuosismo em algumas passagens, o músico soube não deixar que isso ocultasse a musicalidade das melodias que escrevia com seus sopros, e por vezes optou por ritmos e melodias mais suaves quando as canções assim exigiam. O mesmo pode-se dizer do trompetista Bill Fanning, que soube usar efeitos, distorção e virtuose a favor da música, e não contra ela.

Após duas pedradas de mais de dez minutos cada uma, sem muito intervalo para devaneios, o músico enfim conversou com a platéia, já na introdução de uma terceira canção. Se mostrou educado, simpático, mas também enxuto: sua comunicação mais expressiva foi de fato através da música. Também o sotaque nativo falado rápido, somado à bateria já tocando ao fundo, prejudicou uma melhor compreensão do que dizia o músico para o público presente. Nada que tirasse o entusiasmo do público, que em maioria não arredou pé durante as quase duas horas de show que se seguiram. Entre momentos mais intensos e mais suaves, teve destaque pra mim um tema que, como Jeff Coffin fez questão de destacar, é dedicado ao soulman Al Green.

A banda toda se empenhou na construção de uma bela sonoridade coletiva, dando suporte uns aos outros o tempo inteiro. Felix Pastorious, por exemplo, teve garantida a base musical para trocar cordas do seu baixo que ocasionalmente arrebentaram, o que fez rapidamente, numa demonstração de sangue frio e profissionalismo. Também teve destaque no processo a guitarra do jovem Mike Seal, que mesmo privilegiando solos não deixou de se servir de acordes que enriqueceram a música, se valendo dos mesmos até no processo de improvisação. Jeff Sipe na bateria também demonstrou competência em garantir a base e não querer aparecer mais que o resto da banda, exceto é claro em seus momentos de solo.

Mais pros momentos finais do show, Jeff Coffin usou também de recursos como tocar dois saxofones ao mesmo tempo, enchendo o ar de som ao executar a base de suas músicas, uma vez que fazer o mesmo em momentos de improviso seria praticamente impossível. Também para enriquecer a sonoridade, o músico no momento do bis se valeu também da flauta, instrumento que domina e que usa constantemente nas apresentações da Dave Matthews Band, mas que ainda não havia usado na noite, até pelo instrumento ter uma ligação menos direta com o jazz.

Por fim, os músicos saíram de palco aplaudidíssimos e sorridentes, agradecendo muito ao público. Mesmo diante de um público talvez não tão acostumado a uma música instrumental tão pura, a excelência e musicalidade da banda sobressaíram, conduzindo a platéia ao êxtase coletivo e deixando todos com a sensação de ter presenciado um momento único. Justamente como um bom show de jazz deve fazer.JM


Link QuebradoLink Quebrado? Link Sem FotoPost Sem Foto?



Share on :

1 comentários/comente ...:

Brunner disse...

Ótimo texto, ótimo show!

 
© Copyright JazzMan! 2011 - Some rights reserved | Powered by Blogger.com.
Template Design by Herdiansyah Hamzah | Published by Borneo Templates and Theme4all