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11 de janeiro de 2012

Gnosticismo é o "Jazz" das Religiões

Por Wilson Ferreira (cinegnose.blogspot.com)

 Certa vez Louis Armstrong disse a um jornalista: "Cara, se você for perguntar o que é o Jazz, então nunca saberá". Algo semelhante ocorre com termos como "Gnosticismo" ou "Gnose" na história das religiões: devem ser mais experimentados do que compreendidos. Pelas suas próprias origens sincréticas (uma fusão de platonismo, neo-platonismo, estoicismo, budismo, antigas religiões semíticas e cristianismo), o Gnosticismo poderia ser facilmente comparado ao Jazz que, pelas suas origens, também foi resultante de intensas misturas e adaptações.

O que é Gnosticismo? Seja pelo ponto de vista histórico (conjunto de seitas sincréticas de religiões iniciatórias e escolas de conhecimento nos primeiros séculos da era cristã) ou pelo ponto de vista dos renascimentos na era moderna (grupos e, por analogia, a todos os movimentos que se baseiam no conhecimento secreto da “gnose”) são definições que podem levar à generalização e confusão.

Mesmo com a descoberta, em 1945, de textos gnósticos do século IV em Nag Hammadi (Egito), muitos concordam que o tema ainda continua com muitos pontos dúbios.

Hoeller e Conner preferem abordar o Gnosticismo como uma “atitude da mente” ou uma “predisposição ideológica” que surge em ambientes de grande agitação artística e cultural. “Se você é um artista sério, já é meio gnóstico”, afirma Conner. Nessas condições, o Gnosticismo está fadado a um novo renascimento.

Mas há um consenso: o Gnosticismo e seus derivados esotéricos nunca fizeram parte da cultura sancionada pelas instituições. Desde o triunfo do cristianismo ortodoxo após Constantino, a tradição gnóstica entrou para o subterrâneo dos movimentos sociais. Bem sucedido em seus canais subterrâneos, eventualmente ofereceu a pensadores revolucionários e artistas subsídios importantes para críticas aos sistemas opressivos políticos, sociais ou culturais.

É por esse caminho que Miguel Conner (escritor norte-americano de sci fi e editor/apresentador do programa radiofônico "Aeon Bytes Gnostic Radio" - programa de debates e entrevistas semanais sobre temas do Gnosticismo, literatura e cultura pop) vai focar o Gnosticismo ao compará-lo ao Jazz no campo musical. Impossível de ser definido, o Jazz escapa a qualquer descrição ou análise mecanicista. Para Conner, o Gnosticismo se enquadraria nessa mesma natureza. Pelas suas próprias origens sincréticas (uma fusão de platonismo, neo-platonismo, estoicismo, budismo, antigas religiões semíticas e cristianismo), o Gnosticismo poderia ser facilmente comparado ao Jazz que, pelas suas origens, também foi resultante de intensas misturas e adaptações.

Para corroborar com essa ponto de vista, Conner faz uma referência a um texto do escritor de sci fi norte-americano Philip K. Dick sobre “Os Dez Princípios da Revelação Gnóstica”.

Reproduzimos abaixo essa análise de Miguel Conner.

QUAIS SÃO OS PRINCÍPIOS DE UM GNÓSTICO CRISTÃO?

O escritor Philip K. Dick
escreveu
"Os Dez Maiores Princípios da
 Revelação Gnóstica"
Gnosticismo é o Jazz de todas as religiões. São igualmente individualistas, embora sua disseminação seja coletiva; extrovertidos e selvagens nas suas mais íntimas paixões, embora aparentemente contidos em contextos surreais; propensos à adaptações e, dependendo do público, tendem à apropriações para melhorar suas performances. Jazz e Gnosticismo sempre vicejaram nas nevoas, nos cantos escuros da sociedade, assim como nos locais de explosão artística.

Quando pensamos que encostamos os dedos no Gnosticismo ou no Jazz, fogem do nosso toque para reaparecerem em outra divertida manifestação, porém em tons graves e reflexivos provenientes das suas sombrias origens.

No livro “The Gnostic Religion”, Hans Jonas escreveu que para entender o Gnosticismo é necessário uma espécie de ouvido musical que deve ser continuamente treinado.

Não é fácil viver em um mundo onde a fé dominante requer pessoas que executem as regras de um mecânico Salieri ao invés de um etéreo Mozart, tal como apresentado no filme “Amadeus”. Fica difícil compreender uma religião esotérica em um mundo desatento que sempre busca coisas de fácil digestão.

Mas se buscamos uma definição de Gnosticismo, pode vir muito bem de uma pessoa cuja primeira paixão foi a música – Philip K. Dick, considerado por muitos o último e maior bandleader do Gnosticismo.

O Gnosticismo visionário de K. Dick é bem conhecido em seus livros “Valis” e “The Divine Invasion” e nas adaptações cinematográficas como “Blade Runner” e “Minority Report”. Ainda que K. Dick tenha gasto a maior parte da sua vida expressando suas descobertas místicas em seu “Exegesis”. Embora “Exegesis” seja um trabalho pesado, K. Dick acabou conseguindo produzir uma sintética de princípios do Gnosticismo que pode atender às necessidades daqueles que querem aprimorar o ouvido musical.

Aqui estão os “Os Dez Maiores Princípios da Revelação Gnóstica”:

Os gnósticos cristãos do século II acreditavam que, mais do que a fé, somente uma forma especial de revelação pelo conhecimento poderia trazer a salvação. Os conteúdos dessa revelação não poderiam ser recebidos empiricamente ou derivado de algum a priori. Consideravam essa especial gnosis tão valiosa que achavam necessário mantê-la em segredo. Aqui estão os dez principais princípios da revelação gnóstica:

- O criador desse mundo é louco;

- O mundo não é o que parece ser, pois encobre o mal contido nele através de um véu de ilusão que obscurece a existência da divindade enlouquecida;

- Existe outro reino, com um Deus melhor, e todos os esforços devem ser direcionados para: Retornar para lá; Trazê-lo aqui;

- Devemos recordar das nossas origens nas estrelas que remonta há milhares de anos;

- Cada um de nós possui uma contraparte divina que pode ser encontrada para nos fazer despertar. Essa outra personalidade é o nosso autêntico self desperto; o outro, aquele que nós possuímos, está adormecido. Estamos de fato dormindo e nas mãos de um perigoso mágico disfarçado de Bom Deus, mas na verdade uma divindade criadora demente. A desolação, o mal e a dor nesse mundo, o fato de vivermos em uma prisão controlada por um criador demente, produzem em nós, desde o início, um princípio de realidade dividido que nos faz adormecer de bom grado na ilusão;

O Demiurgo: o criador
desse mundo enlouqueceu
- Você pode sair dessa delirante prisão para ingressar no reino da paz se o verdadeiro Bom Deus colocá-lo sob sua Graça e permitir que veja a realidade através dos seus olhos;

- Ao invés de receber, Cristo deu revelação; ensinou seus seguidores a entrar, ainda vivos, no Seu reino, enquanto as outras religiões trazem apenas o esquecimento sobre o conhecimento de um “outro tempo” em um “outro reino” que não é daqui. Ele nos faz retornar a viver como o Deus Único (isto é, o Logos);

- Provavelmente a real Igreja Cristã ainda exista secretamente no subterrâneo, sob a chefia ou governo do Corpus Christ vivo, onde seus membros são absorvidos por Ele. Razão pela qual provavelmente têm um vasto e quase mágico poder;

- A divisão entre dois tempos e dois reinos (o Bem e o Mal) terminará abruptamente com a vitória do Bem, que tornará visível um reino que atualmente é mantido invisível. Não podemos saber quando isso acontecerá;

- Até lá estaremos como em uma ponte, sendo julgados se fomos fiéis ao enlouquecido demiurgo criador desse mundo ou fiéis ao Deus Único e Seu Reino, o qual conhecemos através de Cristo.

“Os Dez Maiores Princípios da Revelação Gnóstica” é uma importante lista de princípios de um indivíduo que possua um apurado ouvido musical para entender o Gnosticismo. Mas na atualidade todos os princípios desta artística fé são apenas notas musicais soltas diante de um cenário em preto e branco. A melodia não pode ser apenas compreendida, mas tem que ser experimentada para podermos receber plenamente suas recompensas.

Se uma pessoa não consegue entender o Gnosticismo depois de repetidas sessões, então talvez seja melhor render-se a uma frase que certa vez Louis Armstrong disse a um repórter:

“Cara, se você perguntar o que é o Jazz, então nunca saberá”

De qualquer forma, aqui está um simples princípio em uma única linha que um ortodoxo ou fundamentalista poderá entender:

“Gnosticismo toca uma música infernal, figurativamente e literalmente”

E “All That Jazz”.

(CONNER, Miguel. "What are the Main Principles of a Christian Gnostic?" In: Examiner.com).


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