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20 de junho de 2012

1º Santos Jazz Festival reuniu 10 mil pessoas no Centro Histórico de Santos

Evento teve 40 horas de música, entre shows e workshops

O Santos Jazz Festival começou para valer na noite de terça, dia 12 de Junho, no programa Metrópolis, na TV Cultura em São Paulo, no emocionante reencontro entre Hermeto Pascoal e seu velho parceiro no Quarteto Novo, o fabuloso guitarrista Heraldo do Monte. Hermeto e Heraldo estavam tão felizes em tocar juntos novamente depois de tantos anos que esqueceram que estavam em um programa de TV, e não deram a mínima para as determinações do pessoal da produção do Metrópolis, seguindo tocando ao fundo do cenário enquanto a apresentadora tentava dar sequência ao programa, apesar deles.

Na noite seguinte, foi a vez de Hermeto e o Maestro Luis Gustavo Petri, da Sinfônica de Santos, se reunirem para um Ensaio Geral da peça composta por Hermeto especialmente para o evento, e que Guga arranjou para Orquestra. Mais uma vez, a genialidade e a generosidade musicais do velho bruxo deram o tom da brincadeira. Basta olhar para as fotos de Hermeto contracenando com Petri e sua Orquestra para perceber a camaradagem mágica que havia se instaurado no Palco do Teatro Coliseu.

Primeiro dia do festival



Na noite do dia 14 de Junho, começou o Santos Jazz Festival.

Começou com o Maestro Guga Petri saudando Hermeto Pascoal e o convidando para juntar-se à Orquestra Sinfônica de Santos num número performático muito divertido, composto por Hermeto especialmente para a ocasião, intitulado "Do Brasil Para O Mundo", onde misturam Stockhausen com forró, Stravinsky com xaxado e Ravel com baião. Foi uma verdadeira festa, que começou com Hermeto chegando e terminou, de forma inusitada e muito divertida, com todos os integrantes da Orquestra se levantando e indo embora do palco, sem aviso prévio, deixando o público boquiaberto.

E então, no segundo tempo do show de abertura, Hermeto volta ao palco do Teatro Coliseu com os vinte músicos da Jazz Big Band, trazendo como convidados seu filho percussionista Fábio Pascoal e sua mulher Aline Morena. Agora envolvido num approach musical bem jazzístico e um pouco menos experimental, Hermeto passeia por números bem conhecidos de seu repertório, como "Jegue", "Pintado O Sete" e "Quebrando Tudo" -- mas não sem inserir algumas excentricidades preciosas, como um solo de gargarejo e um rápido dueto piano-macaquinho de pelúcia com apito. Convenhamos, não seria Hermeto Pascoal se não fizesse alguma coisa assim.

Segundo dia do festival

Depois da abertura espetacular de quinta à noite, chegou a hora  do Santos Jazz Festival sair para a rua.

Um palco montado na Rua XV, no Centro Histórico da Cidade, em meio aos escritórios das tradicionalíssimas Comissionárias de Café, foi montado durante a semana para sediar os shows mais populares do Festival.
Paralelo a isso, um segundo palco foi projetado dentro da velha Bolsa do Café, onde hoje funciona o Museu do Café, para abrigar apresentações mais intimistas.

Pois foi justamente nesse palco que ocorreu a primeira apresentação do dia, bem ao meio dia: o trio do saxofonista Maurício Fernandes -- excelente músico local, hábil tanto no tenor quanto no alto, no barítono e no soprano, e fortemente influenciado por John Coltrane e Wayne Shorter -- recebeu como convidada a vigorosa cantora veterana Deborah Tarquínio, e juntos promoveram releituras intensas para "The Look Of Love", "This Masquerade" e "Speak Low", entre outras, emocionando várias pessoas que passavam por alí em horário de almoço.

Mais para o final da tarde, no mesmo palco da velha Bolsa do Café, a trinca de guitarristas do Cor das Cordas brilhou com seu repertório de canções próprias alternadas com releituras inspiradíssimas de clássicos de Tom Jobim, Toninho Horta e tantos outros, estendendo o tapete para todas as atrações que viriam a seguir na Rua XV, no quarteirão seguinte, bem na esquina com a Rua do Comércio.

O Palco da Rua XV recebeu sua primeira atração às 18 horas. Izzy Gordon e seu pai Dave Gordon ganharam com simpatia o público que saía do trabalho e seguia para a happy hour, passeando num repertório variado que incluía pérolas dos repertórios das carreiras tanto de um quanto do outro, vez ou outra embarcando em duetos muito aplaudidos por todos os presentes. Izzy, para quem não sabe, é sobrinha de Dolores Duran por parte de mãe, e vem resgatado seu repertório de forma muito original nos últimos anos, dando a ele uma roupagem modernosa e, ao mesmo tempo, atemporal.

Logo a seguir, o excelente pianista santista Hildebrando Brasil e o magnífico trombonista Bocato uniram forças ao quarteto de Zé Simonian e promoveram uma brincadeira musical bem brasileira e extremamente bem humorada. Hildebrando, com seu toque bluesy e, Bocato, com sua atitude musical 100% iconoclasta, trouxeram para as misturas musicais bem brasileiras de Simonian um toque ecumênico, que acabou resultando numa performance surpreendente para todos que, assim como eu, nunca haviam imaginado essas grandes figuras dividindo um mesmo palco. 

E então, por volta das 21 horas, chegou a vez da banda dos filhos do saudoso maestro Paulo César Willcox subir ao palco. Comandada pela sempre exuberante cantora Kika Willcox, a Família Willcox e Convidados desfilou um repertório pop contemporâneo de extremo bom gosto, alternado com clássicos do jazz e do blues. Kika, claro, mostrou mais uma vez porque é uma das cantoras mais versáteis e festejadas da cena paulista atual. 

A performance de Kika foi seguida pela entrada em cena do guitarrista mais rápido do Sudeste, o Billy The Kid do blues-rock Mauro Hector. E Mauro, à frente de seu ótimo trio -- Ricardo Bocate no baixo de cinco cordas e Alexandre Faccas na bateria --, mostrou mais uma vez todo o seu gabarito musical e levou a plateia ao delírio com seus solos frenéticos e intermináveis. Seus velhos fãs do power trio Druídas saíram satisfeitíssimos com sua performance.

Para encerrar a noite, o filho pródigo Arismar do Espírito Santo, santista da gema, baixista e multi-instrumentista de renome internacional -- que veio acompanhado dessa vez apenas pelo baterista Cléber Almeida e pelo espetacular saxofonista Vinícius Dorin --, aproveitou a deixa para apresentar as canções de seu novo disco: “Alegria nos Dedos”, em que mistura samba, valsa, choro, baião, afoxé e choro com seu jazz fusion personalíssimo. Já eram quase 2 da manhã quando o "gigante gentil" Arismar, depois de quebrar tudo com seu bom e velho Fender Jazz Bass, finalmente deu seu show por encerrado e desceu do palco para conversar com alguns amigos de muitos anos lá da Rua Maranhão, no bairro santista do José Menino, onde foi criado e onde começou a se interessar por música no final dos anos 60.

Terceiro dia do festival

A expectativa era grande para um sábado de sol maravilhoso na segunda maratona de shows de rua do Santos Jazz Festival. Desde as primeiras apresentações à tarde, no palco camerístico da Bolsa do Café, havia alguma coisa no ar que indicava que teríamos um dia muito especial. O astral pacífico das performances vespertinas bem intimistas, e lotadas, do guitarrista Alexandre Birkett e seu Trio, e do pianista Robson Nogueira com o cantor Celso Lago, já indicavam que tudo estava em seu devido lugar, e que dalí para a frente bastaria simplesmente deixar rolar, sem sobressaltos.

Pois foi exatamente o que aconteceu, desde o início da primeira atração do Palco da Rua XV. Às 18 horas, a cantora Babi Mendes subiu ao palco acompanhada pelo saxofonista Maurício Fernandes e seu quarteto, e começaram a apresentar canções de seu disco "Short Stories" -- um trabalho extremamente bem produzido e "empacotado" da maneira mais adequada para promover seus talentos como cantora quanto como compositora. Perfeitamente integrada com seu time de músicos -- todos empenhados em aparecer pouco, e "fazer escada" para Babi --, ela conseguiu realizar um show muito superior ao do lançamento de seu disco no SESC-Santos meses atrás. Na metade do tempo regulamentar, dispensou a banda e chamou o hábil guitarrista Marcos Canduta para um set de duetos voz e guitarra com clássicos do jazz, muito bem recebidos pela plateia. E então, depois de três números bem intimistas, volta ao palco o poderoso quarteto de Maurício Fernandes para fechar a apresentação em grande estilo com "Grapefruit" e com uma releitura deliciosa para "I Got Rhythm", de George & Ira Gershwin, onde a banda mostrou todo o seu suingue invejável. Verdade seja dita: Feliz o cantor ou cantora que conta com músicos como esses na retaguarda.

Por volta das 19h30, o veterano Filó Machado e sua banda subiram ao palco, com seu approach musical extremamente arrojado, que une um blend personalíssimo de soul bem brasileiro com improvisos jazzísticos sempre surpreendentes. Filó é um desses caras que sempre teve uma entrada muito mais fácil no mercado estrangeiro do que por aqui. Veterano, com mais de 30 anos de carreira, muita gente se lembra bem de seus discos do início de carreira, mas a grande maioria não sabia ao certo por onde ele andava desde então. Pois acabaram descobrindo da melhor maneira possível, numa performance brilhante e vibrante à frente de uma banda impecável.

Mais adiante, às 21h30, subiu ao palco o aguardado quinteto gaúcho Delicatessen. Numa performance de uma elegância musical impressionante, o Delicatessen apresentou prioritariamente clássicos do "Great American Songbook" em arranjos muito originais, sempre sob o comando da cantora Ana Krieger, Com eles, uma canção como "My Foolish Heart", por exemplo, que já teve centenas de gravações, ganha uma leitura completamente original. Por um lado, ela mantém toda a doçura de seus versos originais enquanto está sob o comando de Ana. Mas assim que ela termina sua parte, a banda assume embarcando num clima musical denso e turbulento, dando a entender que a descoberta do amor pela protagonista da canção não vai ser algo muito harmonioso, nem deve ter um final feliz. São sacadas musicais como essa na hora de elaborar seus arranjos que fazem do Delicatessen algo muito especial na cena musical atual, e que justifica todos os prêmios que o grupo vem colecionando ao longo desses últimos anos. Depois de pouco mais de 45 minutos de show, a plateia do Santos Jazz Festival estava completamente rendida ao encanto e à delicadeza musical do Delicatessen. Está aí um grupo que merece toda a (boa) fama que tem.

Já eram quase 23 horas quando o genial Heraldo do Monte e seu filho Luís do Monte subiram ao palco, cada um empunhando uma guitarra, e começaram uma brincadeira longa e deliciosa com a clássica "Fly Me To The Moon", sem banda nenhuma acompanhando. Nem precisava. Foi como se eles estivessem em casa, tocando em pé para seus convidados. Tocaram sem parar durante quase uma hora para uma platéia silenciosa e completamente hipnotizada. Foi simplesmente magnífico. Uma aula de guitarra que deixou todos os guitarristas que estavam na platéia com um sorriso permanente dos lábios e todos os demais com a certeza de que haviam acabado de presenciar um momento musical único e inesquecível.

À meia-noite, o palco do Santos Jazz Festival recebeu de braços abertos o ótimo trio do bluesman torcedor fanático do Santos Futebol Clube, o guitarrista paulistano André Christovam. André começou manso, com números instrumentais. Mas depois de um breve aquecimento com clássicos de seu repertório como "Dados Chumbados" e "Genuíno Pedaço do Cristo", André chamou seu mestre Heraldo do Monte para voltar ao palco e acompanhá-lo num dueto de guitarras em "Jumping The Blues", de Duke Ellington -- mas não sem antes chamá-lo de "El Presidente" e ressaltar para todos os presentes que Heraldo é um guitarrista único, um craque absolutamente original de seu instrumento, da mesma grandeza de Charlie Christian e Django Reinhardt. Depois dessa aula de delicadeza e camaradagem musicais, André, ainda não satisfeito, chamou ao palco seu segundo convidado: o lendário guitarrista paulistano Faísca. Juntos, os dois passearam com suas guitarras fulminantes por clássicos de Junior Wells ("Early In The Morning"), B B King ("Help The Poor" e "Caldonia"), Albert King "Crosscut Saw"), Freddie King ("Someday After Awhile”) e Sonny Boy Williamson ("Eyesight To The Blind"), e só pararam quando a voz de André desapareceu por completo. Por volta de uma da manhã, completamente afônico, pediu desculpas à platéia por ter que encerrar por aí, mas ainda conseguiu dizer, com muita dificuldade, que foi um grande prazer estar de volta a Santos, e a um palco bem aconchegante como esse, repleto de amigos, e em particular a essa edição inaugural do Santos Jazz Festival.

Último dia do festival

Domingo, às 20 horas, no Theatro Coliseu, chega a hora do Santos Jazz Festival encerrar sua primeira edição.

O primeiro dos dois shows da noite foi uma grata surpresa. O saxofonista e maestro Roberto Sion, santista da gema, veio sozinho ao palco, munido apenas de um sax-alto e uma flauta. Tocou, brincou, contou histórias da cena jazzística de Santos nos anos 60 e 70, quando iniciou sua carreira musical. Homenageou Tom Jobim, tocou “Brigas Nunca Mais” e “Body & Soul”. Falou de seu pai, que foi um dos fundadores do Clube de Jazz de Santos nos anos 50 e lembrou de Stan Kenton hospedado em sua casa. E então, para surpresa geral, deixou o sax e a flauta de lado, sentou-se ao piano e tocou algumas canções de que gosta muito, como “All The Things You Are” e uma canção inédita de sua autoria, composta especialmente para Santos no final dos anos 60, quando foi estudar música na Europa, que estava guardada na gaveta e acaba de ser devidamente resgatada. Sion deixou o palco do Coliseu sob aplausos calorosos, mas não sem antes dar sua bênção ao Santos Jazz Festival.


E então, começa o segundo e último show da noite. E eis que surge no palco do Coliseu o jovem gaúcho de Passo Fundo, Yamandu Costa. Apesar de seus 32 anos de idade, Yamandu já é veterano: acaba de completar 18 anos de carreira e já tem 15 discos gravados. O que mais impressiona em sua técnica é a maneira irreverente com que mistura diversas estilos diferentes de tocar violão num formato único, vigoroso, intenso e muito dramático. Yamandu não faz a menor cerimônia ao tocar um choro tradicional como se fosse jazz mamouche, ou uma valsa bem brasileira com toques flamencos – pelo contrário, parece estar sempre se divertindo muito com essas “malcriações” musicais. Mas surpreendente mesmo é ele ter conseguido desenvolver um estilo tão pessoal com apenas 18, 20 anos de idade. Na apresentação, ao lado de um violonista e de bandolinista, Yamandu tocou basicamente canções próprias. As exceções foram uma releitura de um belo número de Radamés Gnattali, e um bis com “Carinhoso”, de Pixinguinha – um pequeno mimo para uma platéia que soube se comportar tão bem diante de um recital de mais de uma hora de duração com um repertório nada conhecido. 

Depoimentos dos organizadores

"Estou muito satisfeito pelo envolvimento dos músicos, imprensa, do apoio dos patrocinadores e a competência da equipe que ajudou a realizar o primeiro festival de jazz em Santos, além da maravilhosa recepção do público. A cidade abraçou o evento e pudemos ver a troca artística entre os nossos músicos locais e os que convidamos de fora da região. Tudo deu muito certo e é um incentivo para caminharmos para uma segunda edição, para que esse evento possa entrar no calendário da cidade. Foram 21 apresentações, entre shows e oficinas prestigiadas por, aproximadamente, 10 mil pessoas." (Jamir Lopes, diretor de produção)

"Superou as nossas expectativas. Como foi nosso primeiro evento, a gente não sabe muito bem como será, pisamos em algo que não é muito concreto. Porém, foi melhor do que esperávamos, superando nossa estimativa de público e de qualidade artística. Jamir e eu realizamos o sonho de trazer um projeto como esse para a nossa cidade e, pela quantidade de pessoas que prestigiou, acho que realizamos também o sonho de muitas outras pessoas de ver artistas tão maravilhosos como os que se apresentaram, todos, realmente, capricharam. Festivais como esse acontecem em várias partes do País, por que não em Santos? Provamos que a cidade recebe o gênero muito bem e pudemos mostrar que o jazz não é elitizado como pensam. O 1º Santos Jazz Festival concluiu seu objetivo: trazer música de boa qualidade para a cidade, promover troca de experiência entre nossos músicos e de outras regiões e mostrar que podemos organizar um ótimo evento, valorizando os artistas brasileiros" (Denise Covas, diretora executiva)

O festival é patrocinado pela Vale Fertilizantes, através da Lei Rouanet. Tem o apoio  do Governo do Estado de São Paulo, da Escola de Música & Tecnologia (EM&T), do Senac e da Odebrecht Realizações Imobiliárias. Além do apoio institucional  do Museu do Café e do Santos e Região Convention & Visitors Bureau. A realização do Santos Jazz Festival é da DC Produções, GPA Cultural e da Associação dos Artistas. A correalização é da Prefeitura de Santos e a Produção Cultural de Jamir Lopes.

Mais informações em www.santosjazzfestival.com.br.

O Santos Jazz Festival também está nas redes sociais:

Jazz for Lovers
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