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26 de abril de 2013

Funk é cultura, mas não é intocável


Por Leonardo Alcântara (JazzMan!)

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A jornalista Rachel Sheherazade
Com alguns dias de atraso, vi o tal vídeo (vejam acima) com a jornalista Rachel Sheherazade, do telejornal SBT Brasil, dando a sua "opinião" (entre aspas mesmo) sobre o funk carioca. Em um daqueles comentários à la Paulo Francis, a jornalista do SBT distribui suas falácias ao telespectador, demonstrando total despreparo para falar sobre cultura, arte, música, posição da mulher na sociedade e, sobretudo, falar sobre o papel do meio acadêmico, que, vale lembrar, está tão sem credibilidade nos cursos de comunicação.

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Sem aprofundar muito nas palavras da intelectualóide jornalista, vamos combinar uma coisa: 'Funk é tão cultura quanto a Bossa Nova'! Quem pode dissertar o contrário? É burrice negar o funk enquanto movimento, expressão e força de mobilização. Por que funk não seria cultura? Pode não ser o seguimento musical que lhe agrade, mas é cultura e não se fala mais nisso.

Valesca Popozuda e seu chá de cu
Putaria? Qual o problema? Quem não gosta de falar sobre isso? Quando é com o Nelson Rodrigues é bonito, 'é cultura', mas como é funk, vira subproduto? Alto lá! O que a Valesca Popozuda canta de diferente do que você imagina e se excita? Não acredito que você acha que quando a sua mulher está entre as amigas dela, ela só fica falando de Foucault. Ela quer é soltar a língua e depois dar o 'Foucault' para você, seu mané!

Em uma época tão 'Infeliciana', onde o nosso país se trava na sua indefinição, falar de sexo tão abertamente tem o seu lado positivo. Quando que em outrora, uma mulher podia falar aquilo que deseja e pensa na cama com tanta liberdade? Pode também não ser a linguagem que lhe agrade, mas aí já é outra questão e este processo tem o seu devido impacto e profundidade, que merece ser avaliado e discutido nas mais diversas rodas. Se o prazer feminino te dói, você precisa rever os seus conceitos e sua época.

Mas o funk não é coitadinho

Na contramão da discussão, também questiono alguns defensores extremistas do movimento. Não gosto quando preconceituosamente criticam o funk por sua posição social, sua cor, sua origem e jeitos. Fico profundamente chateado e triste por isso. Porém, também odeio quanto tratam o funk como coitadinho, como uma coisa que não pode ser criticada por ser mais 'frágil'.

Certa vez, no antigo Centro Cultural Telemar, no Largo do Machado, eu estava ouvindo um disco do Milton Nascimento e um amigo meu colocou um do Mr. Catra. Ele me perguntou se eu gostava e eu simplesmente disse que não e expliquei que não era o tipo de música que eu ouvia. Em um gesto que até hoje eu fico me perguntando o porquê, ele me falou: 'você não é preto de verdade, só quer saber dessa MPB'. Puxa vida, agora o funk é que irá definir se você é preto, branco ou amarelo com pintinhas rosas? Logo eu que além de não precisar provar isso, estava ouvindo o 'caucasiano' do Milton Nascimento. Será que eu estou ficando amarelo de tanto ouvir João Gilberto?

Eu não gosto de funk, admito. Não me agradam aquelas vozes agudas em terças, aqueles gritos e nem aquela batida que se mantêm sempre no mesmo compasso e é repetida em quase todas as músicas. O funk não me comove e música precisa me comover, mas as minhas críticas são meramente sobre o caráter estético e a estrutura musical. E crítica é uma coisa boa, acreditem. Eu não gosto, mas há quem goste e eu respeito, mas eu também me sinto muito à vontade e com direito para criticar, assim como também critico as coisas que eu gosto de ouvir, como o próprio Milton. Este direito de crítica não está restrito aos funkeiros. É um processo justo! Eles também podem criticar o Milton ou qualquer outra coisa que eles tenham em mente. Não podemos esquecer que, tirando a essência do trabalho, a música também é um produto, que tem o seu marketing e sua indústria que faz publicidade, que vende e assim gera consumidores. A partir de momento que a música é consumida, ela está propensa a críticas positivas e negativas. Eu não vou ficar aqui comparando ícones do funk com ícones emepebistas, como fez a tal jornalista. Fico com o meu disco do Milton Nascimento e deixo o meu amigo ouvir o disco do Mr. Catra em paz, mas gostaria também que quando eu falasse de funk, seus defensores saíssem da esfera do coitadismo, como eu já presenciei em outras oportunidades e partissem para a defesa do funk dentro da esfera musical.

Se o funk quer crescer, se mostrar forte - e ele é - , está mais do que na hora de romper com o seu  complexo de inferioridade e perceber que sua música merece ser avaliada como qualquer outro movimento artístico. O funk não é intocável, assim como não é a Bossa, o Jazz, o Samba e outros. Receber críticas só fará com que a música cresça e se inove. Está na hora do funk e seus defensores saírem daquela coisa: 'ah, tadinho, ele é da favela, preto e pobre' e começar a levantar o peito e demonstrar a sua arte sem medo, contra tudo e contra todos, assim como outros movimentos precisaram fazer. Se o funk quer ser visto com arte - e de fato é -, o primeiro passo é se fortalecer e tomar consciência de si mesmo.

Continuo não ouvindo funk, mas quem sabe um dia alguma coisa me surpreenda e eu me renda ao batidão e ao 'chá de cu' da Valesca Popozuda. JM


Jazz for Lovers
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4 comentários/comente ...:

Marylin disse...

Excelente texto, Léo. Me identifico totalmente. E, na perspectiva das ciências sociais críticas que ora o denfendem, ok não estigmatizar, ok desconstruir a falsa distinção entre baixa e alta cultura, ok valorizar algo que emergiu das ditas classes populares (aqui está outro termo meio controverso), faço tudo isso. Agora, ser obrigada a gostar e ouvir algo que me fere os ouvidos, NÃO! porque eu simplesmente não gosto. E declarar isso não é estigmatizar o dito cujo

Alyssön repúdio disse...

ótimo texto..exatamente o que penso.

Anônimo disse...

Aff's, sem culturas e assim mesmo.

Márcia Pereira disse...

Adorei o texto, em um vídeo da Camila Uckers (ela faz comédia no Youtube) "Funk é Cultura Sim"- não sei se é esse o nome, mas fala isso- muita gente criticou e tal e eu fiz questão de comentar que concordo com ela. É cultura. Mas tbm diferenciei a cultura da Arte em si. É fato que funk é cultura, mas pra mim não é arte. Não me emociona, não me acrescenta, eu não acho bonito/belo, enfim, não me agrada e ponto. Não quer dizer que eu não me identifique com a luta da favela, do negro, do feminismo, por exemplo, fui criada no Samba, ouvindo só os bambas e aquilo pra mim é arte, tal como o Rap nacional que pra mim representa muito, o Rock 'n Roll, o Jazz (mas isso fica pra outro comentário)... O ponto é que Arte é questão de perspectiva. Uma outra pessoa pode super se identificar com este gênero e pra ela será arte... Enfim, bacana o texto, tem muita gente que se acha "crítico" mas, não passa de pseudo-intelectual, vamos abrir a mente.

 
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